Mostrando postagens com marcador the wolf of wall street. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador the wolf of wall street. Mostrar todas as postagens

28 de janeiro de 2014

O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013)


Em O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013), um homem (Jordan Belfort) conta a estória de como deixou de ser um joão-ninguém para se tornar um homem rico e poderoso através de lavagem de dinheiro e fraudes, para depois ser pego e perder tudo, numa trama recheada de drogas, intrigas e crime. Dito assim, fica evidente que o filme vem do mesmo molde (e do mesmo diretor) de Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995). Por um lado, pode-se dizer que Scorsese recorreu a uma velha “fórmula” (mesmo que o filme traga novos elementos à sua filmografia), o que é uma pena. Por outro, O Lobo de Wall Street vai além de seus antecessores em certos pontos, como na quantidade de sexo, drogas e palavrões (o filme bateu o recorde de uso da palavra “fuck” e suas variações em um longa de ficção, com 506 execuções), e, mais importante, no ritmo, ainda mais frenético. Mesmo assim, é discutível se O Lobo tem a mesma qualidade dos outros dois, principalmente Os Bons Companheiros.
Em seu novo filme, Scorsese nos mostra como seria se Jordan Belfort pudesse contar sua própria estória através de imagem e som, guiando os acontecimentos do filme como se eles fossem vistos pelos olhos do seu personagem principal, assim como fez em Os Bons Companheiros, com imagens congeladas, planos-sequência grandiosos, narrações em off, músicas aos montes e demonstrações de bravata e macheza. Assim, em boa parte (ou nas melhores partes) do filme, a direção assume o caráter ou ponto de vista de seu protagonista, se tornando extravagante e hedonista.
A edição de Thelma Schoonmaker, parceira de Scorsese desde Quem Bate À Minha Porta (1967), também assume o ritmo delirante de Jordan, numa montagem afiada e rápida, digna de um viciado em cocaína. Mesmo com três horas de duração, há pouquíssimos diálogos cansativos ou pausas para respirar, e elas se concentram justamente no período em que Jordan se afasta dos negócios e das drogas, no fim do filme. Até os blecautes e amnésias de Jordan são “respeitados” a princípio, para depois serem revelados com grande efeito cômico. De certa forma, a fluidez frenética do ritmo corresponde à obsessão doentia de Jordan por dinheiro e poder e sua ambiciosa busca por uma vida de rei, que por sua vez reflete a ambição de boa parte da plateia do filme e os recentes problemas econômicos internos dos EUA, com protestos contra o acúmulo de capital do 1% mais rico da população e o descontentamento geral com banqueiros e corretores.
Jordan praticamente não para por um minuto para mostrar arrependimento ou consciência sobre o que está fazendo, a não ser quando se divorcia da primeira mulher, num momento raro de comoção genuína do personagem, que é rapidamente esquecido. Seus comentários e reflexões são cínicos e irônicos, e geram um tipo estranho de empatia. Por um lado, o charme e o senso de humor de Jordan (numa interpretação maravilhosa de Leonardo DiCaprio) são inegáveis e o aproximam do público, principalmente com ele se dirigindo a nós diretamente, mas sua vida é tão cheia de excessos e loucuras que tudo passa a ser visto como que a certa distância segura, mas irônica.
A câmera corresponde visualmente a esses excessos com tomadas ostensivas, como o plano-sequência exagerado em que a câmera viaja por sobre os convidados do casamento de Jordan com Naomi, as sequências em câmera lenta demonstrando o barato dos “ludes” e as tomadas nas quais ele discursa para seus empregados, em composições que o fazem parecer um general falando para uma horda de soldados.
As próprias músicas da trilha sonora são usadas de maneira exagerada e efêmera, como uma das coisas que Jordan compra e descarta, com intervenções breves (a maioria de menos de meio minuto) e de resultados variados. As músicas do filme (e são muitas, como em todo bom filme de Scorsese) funcionam para encorpar o estado emocional ou o ritmo das cenas, precisão cronológica à parte. Qualquer tipo de coerência quanto à época em que as ações do filme se passam é jogada pela janela assim que começa o riff inconfundível da primeira música, Dust My Broom, blues cantado por Elmore James em 1951, ou quando Everlong, música de 1997 do Foo Fighters, é tocada. A ligação entre elas e as imagens nem sempre é muito evidente, mas o conjunto passa uma ideia de macheza encenada, diversão hedonista e um estilo meio “badass”, casando bem com o clima do filme e dando urgência à montagem.
Mas seria tolice achar que a cumplicidade de Scorsese com o protagonista vá além de propósitos narrativos e signifique que o diretor seja leniente com as ações de Jordan e sua matilha, ou as glorifique. Mostrar os absurdos dos corretores de Wall Street de forma estilizada não é o mesmo que celebrar essas ações. Ao invés disso, o diretor usa esses acontecimentos para tecer uma crítica a toda essa ganância, dotando as cenas de um tom frequentemente satírico e irônico, que ridiculariza os personagens. Até Kimmie, uma corretora que consegue ser humanizada e demonstrar sentimentos, não escapa e só consegue pensar em seu terno Armani ao ser presa. Como em Dr. Fantástico (Stanley Kubrick, 1964), as situações na qual o filme se baseia são tão absurdas que é impossível mostrá-las de forma séria e realista. Sob essa perspectiva, o filme se torna uma ótima comédia, e não uma tragédia enfadonha. 

P.S.: dando continuidade à comparação com Os Bons Companheiros, é uma pena que Naomi não tenha direito a mostrar seu ponto de vista tão claramente quanto a mulher de Henry. Seria uma boa chance de humanizar e desenvolver a personagem, que muitas vezes não passa de um fantoche ou modelo. Aliás, a dificuldade de desenvolver seus personagens femininos é uma dificuldade de Scorsese desde sempre.
Leia Mais ►